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Rio de Janeiro: De quem é a culpa?

02/01/2011
Autor: Sidney de Oliveira Novaes Junior

A melhor música que define o Rio de Janeiro tem um verso que diz o seguinte: \"O Rio de Janeiro continua lindo, o Rio de Janeiro continua sendo...\". A música de Gilberto Gil revela a beleza incomparável que a cidade tem, merecendo o incontestável título de Cidade Maravilhosa. Muitas outras foram igualmente feitas, dedicando à cidade uma paixão encantadora. Não sou nascido nela, sou de Niterói, onde vivi até meus 24 anos, antes de vir para Foz do Iguaçu, mas me orgulho de ter sido vizinho dessa cidade com seu eterno alto astral. Inúmeras vezes joguei bola nas areias da Praia de Icaraí, observando o Cristo Redentor abençoando todo nosso estado. Trabalhei no Rio Comprido (Rua Itapirú) e no Centro (Av. Rio Branco) por quatro anos.





Entretanto, esse clima de festa eterno foi duramente abalado pelos recentes acontecimentos. Verdadeira guerra civil, com armamento pesado, táticas e movimentação de guerras, como se o Iraque lá fosse. Munições tracejantes cortaram o ar de diversos bairros, em resposta aos ataques desmedidos promovidos pelas facções criminosas que controlam o tráfico de entorpecentes no Rio Maravilha. Então, chegamos a um momento crucial. Como o RJ chegou a esse ponto?




Tem quem diga que a culpa é dos militares. Pois foi deles a ideia de juntar presos políticos com criminosos comuns. Os primeiros, intelectuais, sabiam se articular para mandar ordens específicas de como manter a resistência à ditadura de pé. Ao se misturarem, os criminosos comuns aprenderam como essa organização funcionava, dando origem ao crime organizado. O filme 400 contra um - A História do Comando Vermelho conta exatamente como isso aconteceu.




Outros alegam que um ex-governador impedia que a Polícia subisse os morros, pois poderia encontrar familiares desse governador por lá, comprando e/ou consumindo drogas, o que macularia sua imagem. Até me lembro de um famoso caso, onde uma policial civil de nome Regina Coeli foi barbaramente torturada, violentada e morta no pé de um determinado morro carioca. A Polícia Civil queria subir o morro e prender (ou vingar) quem fizera aquilo com a colega, recebendo ordens desse governador para que não subissem. Pouco adiantou, por que a Polícia subiu assim mesmo e cumpriu sua missão.




Há os que defendem a ideia de que há o comprometimento de autoridades de alto escalão, que teriam chegado aos seus cargos por obra e força do dinheiro proveniente do tráfico. Exatamente como mostra o filme \"Tropa de Elite 2\". Dessa forma, quem está no comando não quer que seus financiadores sejam colocados atrás das grades, o que prejudicaria suas futuras campanhas e eleições certeiras.




Mas há quem aponte uma classe que não pode ser esquecida nesse processo. A dos consumidores. Aqueles que consomem drogas a título de diversão, de sem-vergonhice, de falta de estrutura psicológica e familiar, por vício mesmo. Se usarmos a lógica, veremos que o dinheiro que sustenta esses marginais que inundaram o RJ com essa onde desmedida de violência é proveniente dessa classe. Não adianta usarem outros argumentos. Sem dinheiro, não há como comprar armas. Sem dinheiro, não há como contratar \"vapores\". Sem dinheiro, não há como eleger políticos comprometidos. Portanto, em minha humilde conclusão, os principais responsáveis por essa guerra civil no RJ é quem compra a droga desses marginais.




Obviamente, vão surgir os arautos da modernidade que dirão: \"Se liberarem a maconha, diminuirá o crime. Pois haverá controle e a maconha é uma droga \'leve\', que faz menos mal que o cigarro\". Droga é droga, seja ela maconha, cocaína, crack, ecstasy, cigarro ou álcool. Uma pode servir de porta de entrada para a outra. Eu adoro uma cervejinha, mas não suporto cigarro. Entretanto, muitos são os que pensam diferente. Por um \"barato maior\", querem experimentar drogas mais pesadas. Fazem de tudo por elas, roubam, mentem, matam. Ou morrem. Se ficar devendo, o traficante não perdoa. Ele quer é receber o dele. Se hoje pedem a liberação da maconha, amanhã pedirão de outras drogas, pois as antiga não lhes causa mais a \"sensação de liberdade\".




Conversando com profissionais da educação (também sou professor), estes me relatam mais um motivo que pode ajudar a entender a escalada da violência. Hoje em dia, o professor é o menos respeitado dentro desse contexto. Há uma charge muito interessante que faz uma comparação importantíssima e realista. Em 1960, os pais acompanham o filho até a escola, com um boletim horroroso e, diante da professora, perguntam ao filho: \"Que notas são essas?\". Em 2010, outros pais vão até a escola com o filho, com um boletim igualmente horroroso e, diante da professora, perguntam a esta, com ar desafiador: \"Que notas são essas?\". Que me desculpem os profissionais da área, mas a psicologia de hoje não consegue traduzir a realidade dos fatos.




Quando tiraram o poder dos pais (não se pode mais dar uma palmada para educar o filho - não é espancamento, é uma palmada) e dos professores de repreender ou reprovar um aluno (os índices de aprovação são importantíssimos, pois garantem repasses de verbas do governo), permitiram que muitos jovens se sentissem livres de reprimendas ou punições justas. Surgiu a sensação de impunidade. O ECA veio coroar essa sensação. Ao menor, só deve ser dado carinho, para não \"traumatizá-lo\". Mas, o menor traumatizar um cidadão de bem, pode.




Me lembro de quando tinha cinco anos e meu irmão quatro, minha mãe guardava uma varinha de goiabeira em cima da porta do banheiro da minha casa. Nossas pernas viviam lanhadas pela varinha, ou marcadas pelo pesado chinelo de couro do meu pai, ou ainda, pelo cabo da vassoura de casa. E nem por isso sou traumatizado ou revoltado. Pelo contrário, agradeço muito à minha mãe pelas inúmeras surras que levei quando criança, pois me deram sentido de obediência, de ordem e de justiça. Coisa que falta hoje em dia.




Talvez estejam aí os motivos para a escalada da violência em nosso País. Infelizmente, no RJ a situação se tranformou em guerra civil. Tropa de Elite virou apenas um pequeno modelo que realmente acontece na Cidade Maravilhosa.



Sidney de Oliveira Novaes Junior á agente de Polícia Federal Lotado e em exercício em Foz do Iguaçu desde 1990, Nascido em Niterói/RJ, há 45 anos.