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O CLIO E O TERNO NÃO COMBINAM

14/04/2014
Autor: Milton Fantucci – Agente de Polícia Federal / Classe Especial

Manhã de sexta-feira. Visto-me no closet da suíte para ir ao trabalho. De terno. Raramente isto acontece. Somente em ocasiões especiais. Uma ou duas nos últimos dois anos. Desço a escada e o meu pequeno e amado Matheus me vê. Ele parece estranhar-me um pouco, mas, logo reconhece quem está “dentro” daquela estranha indumentária, gritando “papai”. É seguido pelo irmão gêmeo, Emmanuel, que quer que eu me abaixe. Logo descubro o porquê. Puxa minha gravata e fica examinando. Acho que nunca antes tinha visto aquela coisa em seus pouco mais de dois anos de vida. Logo desiste e volta aos brinquedos, afinal, seus valores e preferências são outros.

Ele ainda não está contaminado pela superficialidade entranhada no mundo dos Homens. Tomo o automóvel e sigo para a Delegacia de Polícia Federal onde antevejo dezenas de estrangeiros esperando que eu os atenda, com auxilio de colegas do setor. Ao chegar o Héric exprime certo espanto arregalando os olhos e engatando uma pergunta sarcástica:

-Vai fazer exame de fezes?

Respondo com o mesmo nível de sarcasmo:

- Não fale comigo assim. Se ainda não percebeu, este terno criou uma enorme distância entre nós.

Ainda que nossa sala e ante-sala estejam ligadas fisicamente, este terno é na verdade uma barreira de formalidade que precisa ser respeitada. Não sou o mesmo Milton de ontem. Hoje sou o Milton de terno. Está claro?

O Héric quis dizer mais alguma coisa mas interrompi seu propósito:

-Calado. Respeite o terno, respeite o terno.

Ele abaixou a cabeça e ficou sorrindo silenciosamente, enquanto voltava ao trabalho.
Vieram os atendimentos. Aqueles cidadãos das mais diversas partes do mundo, sobretudo Haiti parece terem me respeitado mais que o necessário, e cujo respeito antes já não faltava quando ali eu me apresentava com jeans e camiseta. Vieram elogios a minha forma de vestir. Vieram, também, aquelas perguntas naturais como “porque está vestido assim?”. Uma mistura de comportamentos em razão unicamente da roupa que vestia. Senti ali mais admiração, respeito e até elogios demorados, o que, para um cara feio, é algo que surpreende.
Já ao final do expediente comecei a pensar sobre aquele dia. Sim, o Homem é o que veste e não o que carrega dentro de si . Ele será tratado conforme sua vestimenta. Tanto faz na padaria como na corte suprema. O terno separa as castas sociais, com o poder de alçar quem o veste para aquele nível superior onde os mortais sonham chegar e de onde os “imortais” pensam que nem a morte os alcançará.

Disto tudo, por ter me vestido tão elegantemente neste dia, criei um problema para mim mesmo: meu automóvel Clio 2001 que utilizo para trabalhar todos os dias, não combina com meu terno. Terei que verder o modesto carro e comprar outro, também elegante. Agora sim, com carro “chic” e com roupa nova, serei diferente da maioria e estarei “podendo”, como dizem por aí. Será que com isso deixarão de me chamar por “você” e ganharei outro pronome de tratamento também ? Seria a glória!