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A CAÇA ÀS BRUXAS - DA INQUISIÇÃO AOS DIAS DE HOJE

11/11/2013
Autor: CLÁUDIO ROBERTO DETZEL. Agente de Polícia Federal aposentado

Acompanhando os movimentos deflagrados pelos sindicatos representativos dos policiais federais, em âmbito nacional neste dia 31 de outubro, não pude deixar de estabelecer um paralelo entre a situação vivida na Idade Média e a que se verifica internamente hoje, no Departamento de Polícia Federal; guardadas as devidas proporções, é claro. É voz corrente que na Idade Média alquimistas, cientistas, artistas, doentes mentais e outras pessoas consideradas “anormais” pelo sistema religioso vigente, eram caçados diuturnamente pelos Inquisidores – homens escolhidos pela Igreja para procurar, identificar e punir qualquer pessoa que fosse enquadrada como “herege”, segundo os padrões vigentes na época. Naquele tempo, o costume era prender as pessoas consideradas culpadas por “heresia” e, mediante regras processuais rígidas estabelecidas através de um Inquérito, fazê-las confessar sob tortura todo o “mal” que haviam cometido, sendo certo que, confessando ou não, o destino destes pobres coitados era sempre a fogueira, onde, segundo os inquisidores, seus pecados seriam purgados e sua alma purificada.

Nesta linha de pensamento, é difícil evitar comparações com o clima hoje vivido internamente no Departamento de Polícia Federal, pois apesar de estar aposentado, venho acompanhando com interesse e preocupação os relatos sobre o que vem acontecendo com muitos colegas - policiais federais da ativa, os quais, segundo consta, vêm sofrendo assédio moral e perseguições por parte da Administração pelo simples fato de terem participado de movimentos paredistas ou de manifestações públicas por melhores salários e melhores condições de trabalho.Interessante observar, que passados mais de quatrocentos anos desde a Inquisição o instrumento utilizado pelos atuais \"Inquisidores” para apurar os pretensos “malfeitos” ainda é o mesmo, com uma sutil diferença: - Se antes se buscava a confissão através do martírio e da crueldade física, agora o que se busca é o desestímulo - que visa a desistência de pleitos de luta - através do constrangimento moral e psicológico que aos poucos vai minando o ânimo e quebrando a resistência dos “insurgentes” .

Há notícias de que Inquéritos administrativos disciplinares estão sendo instaurados Indiscriminadamente, para apurar faltas atribuídas a servidores policiais que teriam participado democraticamente de movimentos grevistas e de manifestações pela reestruturação dos cargos de Agente, Escrivão e Papiloscopista.

Paralelamente a isto, consta que muitos destes servidores também vêm sendo sistematicamente perseguidos e assediados moralmente, pelos mesmos motivos. Em levantamentos estatísticos feitos pelas organizações sindicais, verificou-se que a saúde psicológica desses policiais vai de mal a pior, sendo que, além de todos estes problemas enfrentados na esfera funcional, a forte carga de trabalho que lhes é imposta e a total ausência de horizontes e de perspectivas de melhoria na carreira têm contribuído para baixar o moral da tropa, levando, em alguns casos, a danos de consequências irreparáveis tais como o elevado número de suicídios que tem-se observado nos últimos anos no DPF. Se os antigos alquimistas eram acusados de bruxaria por trabalharem em experiências físico-químicas que visavam o aprimoramento da humanidade, então será que buscar a reestruturação e o aprimoramento de uma determinada Instituição visando a transformação positiva da Sociedade pela via da valorização do capital humano seria um novo tipo de Alquimia? Se a resposta for positiva, é de se constatar que qualquer cidadão que lute por reformas institucionais e sociais, seria igualmente culpado por heresia, o que colocaria em xeque todos os fundamentos do Estado Democrático de Direito.Contudo, ao contrário do esperado, verifico com tristeza que atualmente a situação interna do DPF é pior que aquela dos tempos em que i niciei como neófito na polícia. Eram os idos de 1983, finalzinho da ditadura militar, início da abertura política e da anistia. Época de forte rigidez disciplinar e de autoritarismo funcional, porém de grande companheirismo e solidariedade. Ouso dizer que éramos uma família de verdade.
Não sei se o tipo de trabalho desenvolvido evoluiu para dividir e separar as pessoas, ou se foram as pessoas que regrediram para se dividir e se separar. A verdade é que a soberba se assenhorou de muitos e para alguns, a liturgia do cargo passou a prevalecer sobre o espírito do todo. Digo isto, não para que se reconheça o óbvio: - O aparthaid funcional que existe e persiste no DPF - mas para que se admita o mea culpa de muitos, pois se por um lado alguns se apegaram à liturgia do cargo para subjugar e humilhar os demais, por outro lado há também aqueles que, não investidos em um cargo “top” se sustentam no tripé –emulação-bajulação-submissão e, apegando-se a determinadas funções ou encargos ditos “de confiança” ou “de maior relevância” passam a pensar e agir como os primeiros, em detrimento do coletivo. Com grata felicidade, porém, reconheço que nos últimos dias vem crescendo o número daqueles que, imbuídos de um ideal maior, mesmo diante das previsíveis consequências, têm-se irmanado nesta corrente alquímica e transformadora que vem tomando conta das ruas de norte a sul do país - através dos movimentos sindicais - a propagar uma nova idéia de polícia e uma nova noção de Segurança Pública, que aos poucos vai também se incorporando a outras boas teses e projetos que emergem em torno do mesmo tema. Para finalizar este meu breve escorço, ouso dizer que esse caminho, uma vez iniciado, não tem mais volta, pois nosso país não tem espaço nem vocação para retrocesso e em nosso meio não há mais lugar para autoritarismo e arbitrariedade.

“Que venham os Torquemadas!”

Sirvo-me deste singelo texto para render homenagens póstumas ao Delegado de Polícia Federal Aristides Bezerra de Vasconcelos, ex- APF e ex-membro da extinta Guarda Civil do Rio de Janeiro, também conhecido como “O BRUXO” - meu primeiro chefe, grande líder e bom companheiro. “Porque até para ser feiticeiro é preciso antes ser aprendiz.”