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Polícia Federal: desânimo e realidade

08/01/2013
Autor: Sandro Araújo é agente federal e autor dos livros "Federal: uma história de polícia" e "Anjos da noite".

Tenho recebido e-mails. Mensagens no facebook. Acho que se eu tivesse twitter, seria algo avassalador também.



Muita gente perguntando. Gente de todos os segmentos querendo saber o porque de reclamarmos, nós policiais federais, da situação atual da Polícia Federal. \"Por que tanto desânimo?\" perguntam.

Estão preparados?

Espero não tingir seus seus sonhos de negro.



Estamos DESESTIMULADOS SIM! E muito.



Imaginem entrar para uma Polícia Judiciária da União, depois de estudar de forma quase insana para esse concurso, tido como um dos mais difíceis do Brasil. Imagine que, após viver numa \"Ilha da Fantasia\" chamada Academia Nacional de Polícia, o policial é lançado em uma lotação inóspita, invariavelmente sem condições de receber sua própria família. E nessa lotação, perceberá que deverá ser muito mais criativo e voluntarioso para sobreviver, que foi ensinado na ANP.



Imagine se sentir ABANDONADO pelos gestores do Departamento de Polícia Federal, sendo obrigado a se deslocar às suas próprias expensas, pois as diárias, tão necessárias ao cumprimento das missões fora de sede são depositadas apenas DEPOIS da missão iniciada.



Este policial que vos escreve, com outros colegas, viveu o dissabor de ficar sem dinheiro para comer durante o curso especial de polícia, sendo obrigado a comer \"fiado\", esperando a diária cair na conta.



Imagine entrar em uma carreira prevista para durar entre 25 e 30 anos, e após 15 anos de trabalho atingir o posto mais elevado, ficando 10 anos ou mais sem a menor perspectiva de galgar degraus na carreira e, consequentemente, melhorar de vida.



Por que tantos policiais passam a deixar polícia de lado? Porque precisam cuidar das suas vidas, Porque os filhos crescem, entram na faculdade, os gastos aumentam e a perspectiva profissional dos antigões é ZERO.



Por que não fazemos prova para delegado? Porque nós gostamos de ser AGENTES, PAPILOSCOPISTAS ou ESCRIVÃES. Entramos na Polícia por ideal e não por emprego. Muitos de nós têm pós-doutorado em suas áreas de formação e, NÃO CAIAM NA GARGALHADA, somos relegados a planos inferiores, para que recém egressos das faculdades de Direito exerçam suas funções de chefia.



Um dia eu gostaria de debater isso. O que faz um bacharel em Direito ser melhor que um doutor em Física. Respeito. Mas é de difícil compreensão.
I



magine cumprir expediente de forma séria, realizar as investigações pertinentes aos inúmeros inquéritos policiais, para no final perceber que todas as diligências terão pouquíssimo ou nenhum valor na fase processual. Imagine perceber que é parte de uma engrenagem mantida arcaica para suprir a VAIDADE de poucos. Sim, digo sem medo de errar que são poucos, pois a massa dos policiais de TODOS OS CARGOS deseja que esse cenário mude.



Quando percebemos que \"enxugamos gelo\", que os gestores riem e brindam os nossos pés e mãos atados e DEPENDENTES da política de momento, nossos corações se enchem de um misto de tristeza e ira. Gritamos. Tentamos fazer algum barulho. Mas aí percebemos que a sociedade tem a polícia federal que merece. Pois essa sociedade não CONHECE A REALIDADE. Nem se esforça para conhecer. Contenta-se com as pirotecnias que causam a falsa impressão de que a \"Polícia prende e a Justiça solta\". Não é isso. definitivamente. Uma investigação otimizada realizada com seriedade não dá chances à criminosos.



Somos policiais...agradamos à classe média quando entramos de forma avassaladora nas comunidades dominadas pelo \"crime organizado\"(?). E causamos asco a essa mesma classe, quando seus filhos são presos no lugar daqueles \"marginais\" do morro. A sociedade é muito criminosa sim. Não respeita nada. Cansei de ouvir deles: \"Não dá para resolver aqui?\" NÃO!! NÃO DÁ!!



De nada adianta, meus caros, as Nissans, as Glocks, as letras douradas, se os nossos corações, nós POLICIAIS FEDERAIS DO BRASIL conhecemos a NOSSA REALIDADE.



São gestores pouco sérios. Diria até que são quase humoristas. Nossa eficiência é, aos poucos, reduzida à mediocridade. Sim, infelizmente é isso.



E vocês, sociedade, classe média ou qualquer classe...enquanto não se interessarem pelo que é seu de direito, serão sempre enganados por fogos de artifício e carros de som........ainda que tenham as lendárias letras douradas.



Sandro Araújo é agente federal e autor dos livros \"Federal: uma história de polícia\" e \"Anjos da noite\".


Fonte: http://sandro-anjodanoite.blogspot.com.br/