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Mural

NEM TUDO É SONHO

10/07/2012
Autor: Wilson Capeleti Boff

Algum objeto muito potente, e dotado de uma violência descomunal arremessou-me bruscamente na rua para uns cinco metros de distância à frente. Com motocicleta e tudo. Nada de sentir alguma dor. Nada de identificar o causador de um possível acidente. Foram partículas de segundos. Foi um tempo terminantemente insuficiente para se tecer qualquer conexão entre o realismo e a fantasia. Entre o propósito e o casual. Entre o projetado e o imposto. Nessa fagulha de tempo nossa tenra e frágil existência sujeita-se variavelmente a tantas situações e provações, direcionando-nos por fim até à morte.
O desenrolar do episódio foi abrindo meus olhos para uma realidade sui generis, situação em que jamais havia vivido. Considerando que estava caído de costas no asfalto, passei meus sonolentos olhos pelas silhuetas desconhecidas das pessoas que me rodeavam e olhavam de cima para baixo. Todos com olhares consternados e movendo suas faces como para dizer alguma palavra ou frase de conforto ou pedindo que me acalmasse ou não me movesse. Também queriam abrir uma ponte de comunicação e informação comigo...

“Mas que diabo de sonho é esse? Em que merda eu me meti?”, tergiversava agora comigo mesmo num solilóquio primário, tentando dar razão para aquele teatro, dar uma roupagem, auto convencimento de que aquilo tudo ainda tinha nexo. Claro, para todas as evidências aquilo não passava realmente de um sonho, de mau gosto, diga-se de passagem. Sim, não havia nexo, tantas coisas boas para eu fazer, tantos momentos, lugares ou programas para usufruir, e dou-me conta que estou estirado numa avenida, não sei em que situação, em que dimensão, em que planeta, se com o corpo fraturado, dilacerado, algum órgão ou membro inutilizado... Bravo! Algo de positivo se projetou: eu já estava consciente de que aquelas figuras observando-me com os olhos arregalados, em movimentos agitados... eram pessoas!

“Que sonho dos infernos!”-pensava.

Sim, porque nada daquilo dava a idéia de que fluía a normalidade, ou que eu estava participando voluntariamente e de sã consciência de alguma atividade. Por mais que me esforçava não me livrava daquele enredo. Acho que eu não tinha mesmo forças ou condições para virar definitivamente a página daquele jornal. Ali encontrava-me prostrado na avenida empoeirada, imobilizado por estranhos... para que não se agravasse o estado do meu corpo? Talvez? Era crítico? Essa conotação de um estado intermediário entre o realismo e a fantasia, todos esses lapsos e jogos de imagens surreais, ou de passagens e acontecimentos duvidosos, lembravam então capítulos de algum fato consumado! E recente? Algo estranho me acontecia. Mesmo que em sonho.


Dirigi meu olhar ameaçador para um cidadão que deslocava-se agitadamente de um lado para outro falando ao celular. Ou tentando falar. Chamava uma vez. Duas vezes. Tentava. Tentava algum número e dirigia-se para mim, proferindo palavras, nomes de pessoas ou lugares, coisas incompreensíveis para o meu entendimento. Eu reconheci aquele aparelho.

“Ei, devolva-me o celular! Devolva-me o celular! Esse celular é meu!”


É claro, de modo algum eu conseguia proferir alguma palavra ou frase inteligível ou decifrável e nem o indivíduo me dava a devida atenção. Lembro, para todos os efeitos: eu estava boiando nas águas inseguras de um sonho e para tanto nada daquelas passagens poderiam resultar objetivas... Na verdade, em se considerando a existência de um sonho, provavelmente aquele objeto nem era um celular, ou então poderia não ser o meu. Mas era igual ao meu, e alguma ordem interna desde minha alma dizia que eu deveria recuperá-lo.


A suposição de que naquele sonho estapafúrdio várias pessoas estavam se dando bem, apossando-se de meus pertences, recebeu um reforço a mais quando avistei outro sujeito segurando em sua mão esquerda o controle remoto. Sim, e era mesmo o controle do portão de minha residência.


“Droga, dê-me essa bosta! Esse troço é meu...!”


Não! Nada feito. Embora eu tentasse argumentar que me pertencia e alcançava a mão para detê-lo, o sujeito ignorou-me. Eu estava sem moral mesmo. Ninguém me respeitava. Sonho ou não sonho, naquele teatro havia um personagem só, escolhido para ser lisonjeado por dezenas de outros atores, esses com o direito da última palavra...


Mas o auge do estupor aflorou quando avistei minha carteira com os pertences e documentos entre as mãos de outro indivíduo. Era a minha carteira, sim, eu tinha certeza... Isso já era demais!


“Merda, que raio de sonho é esse que estão me depenando, levam tudo e eu não posso fazer nada?!”


De fato, a concepção que eu tinha daquele episódio, ali esticado no asfalto- normal ou inconsciente -era de que eu estava mesmo sonhando, uma dessas passagens indesejáveis, intermináveis. Nada definido, eu querendo acordar e sentindo-me indefeso, insuficiente. Sonho ou não, compenetrei-me por instantes, em determinado momento, indagando a mim mesmo “e se isto se prolongar, com essas pessoas não me entendendo e eu não conseguindo soletrar nem uma palavra, o nome de um parente, o nome da minha rua, do meu bairro?... E se isso não tem nada a ver com sonho, se eu estou mesmo variando, perdendo de vez a memória, que não sei onde estou, que não sei quem sou... Tá que pariu! Melhor esperar, ver se me acordo!”


Com o passar dos minutos- eternos por sinal- a idéia do sonho foi se esvaindo uma vez que comecei a processar mais claramente algumas frases intrigantes e especificas, enquanto detinham-me pelas pernas e pescoço:


“Calma, calma! Você sofreu um acidente. Está tudo bem, a ambulância já está chegando.” Era uma jovem, com a conversa muito educada e confortável. Não sei se ela esperava encontrar-me com algum ferimento mais escrachante, a despeito da violência do acidente, mas quando retiravam-me do local, ouvi suas palavras de admiração quanto ao meu estado geral: “que velhinho forte?!...”


“Viu?...”- eu disse para mim mesmo- ”eu sabia que isso não é um sonho. Foi uma estrepada, um acidente, devo estar todo arrebentado!”


Eu não estava. Tentava levantar-me, pois achava-me inteiro e queria sair dali. Não deixavam mover-me. Nesse momento, quando recuperava-me de um desmaio profundo e já conversava animadamente com aquelas pessoas de almas soberbas e de entrega desinteressada que anonimamente possibilitaram a permanência de um ser humano no amanhecer contínuo dos novos dias, pude observar o quão frágil somos postos à nossa presumida robustez, tão mínimos e solitários, postos à multidão quando individualista ou egoísta, quando num dado momento da vida nos tornamos totalmente dependentes. Aquelas pessoas que pacientemente aguardaram socorro definitivo para minha carcaça humana, não estarão nas manchetes dos jornais e nem nos noticiários televisivos, pois seus atos conformam num patamar superior à apreciação ou aplauso corriqueiro. Completam e enriquecem seu caráter sendo altruístas e praticando o bem. Anonimamente. Desinteressadamente. Valorizam sua existência, cedendo-se aos semelhantes, praticando atos que resultam corporizar espontaneamente suas almas.


Não se poderia jamais enaltecer, no mesmo grau e profundidade, o cidadão que, conduzindo em alta velocidade, provocou um acidente macabro de trânsito, e ainda consciente de seu erro, empreendeu fuga do local, como por discernir que ali no asfalto estava desfalecido e sangrando apenas um ser humano qualquer!...