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Adeus

20/12/2010
Autor: Dante Mendonça para Paraná Online

Tinha um tempo que as más notícias nos chegavam primeiro pelas ondas do rádio, ao abrir o jornal, ou pela vizinha linguaruda. Agora elas explodem nos olhos ao abrir a internet, como ontem, no impacto que nos causou a tragédia que nos levou Zilda Arns. Longe de casa e caída ao lado de outras milhares de vítimas do terremoto.

O Haiti não é aqui, mas pelas imagens e depoimentos que nos chegam podemos até sentir no arrepio de nossa própria pele o que seria o fim do mundo. No meu caso, acrescente-se à tristeza da tragédia a leitura que havia acabado de fazer da autobiografia de Luiz Buñuel, “Meu último suspiro”. No último capítulo, “O canto do cisne”, como não poderia deixar de ser, ele trata das misérias humanas, dos achaques da velhice, da rotina de quase inválido, do nosso instinto de autodestruição e, por conseguinte, da própria morte que lhe rondava. Luis Buñuel era surrealista até a medula. Só assim para compreender uma de suas teorias sobre a humanidade que, segundo o cineasta, ainda vai conseguir fazer a terra sair de órbita e perder-se, vazia e fria, na imensidão: “Bravo! Uma coisa agora é certa: a ciência é inimiga do homem!”. É o instinto de onipotência que vai nos levar à destruição: “A propósito, uma recente pesquisa (Buñuel morreu no México, em 1983) comprova: dos 700 mil cientistas altamente qualificados trabalhando no momento atual , 520 mil tentam aprimorar armas mortais, para destruir a humanidade. Apenas 180 mil pesquisam métodos para a nossa proteção”.

Buñuel adorava animais de qualquer espécie, só tinha pavor de aranhas, o que era um pesadelo de família. Colecionava ratos, não conseguia matar uma mosca e, mesmo exilado da Espanha durante toda a ditadura franquista, chegou a sentir pena dos últimos suspiros do generalíssimo Franco, por manterem-no artificialmente vivo meses a fio à custa de sofrimentos terríveis: “Em nome do juramento de Hipócrates, que coloca acima de tudo o respeito pela vida humana, os médicos criaram a forma mais requintada das torturas modernas: a sobrevida”.

Depois de sentir virtualmente na pele o terremoto do Haiti, confirma-se o surrealismo desta reflexão de Luis Buñuel: “Sinto-me tão profundamente chocado com a explosão demográfica que sonho muitas vezes com uma catástrofe planetária que eliminaria 2 milhões de habitantes, ainda que eu fizesse parte deles. Acrescento que essa catástrofe só teria sentido e valor aos meus olhos se fosse uma catástrofe natural, terremoto, flagelo inaudito, vírus devastador e invencível. Respeito e admiro as forças naturais. Mas não suporto os fabricantes de desastres que diariamente cavam nossa vala comum nos dizendo: impossível fazer de outra forma! Imaginativamente, para mim a vida humana não tem mais valor que a de uma mosca. Na prática, respeito toda vida, inclusive a da mosca, animal tão enigmático e admirável como uma fada”.



Nos últimos anos de vida, sempre que deixava um lugar que conhecia bem, como Paris, Madri, Toledo, Buñuel dedicava um instante a se despedir daqueles lugares. “Adeus, Paris! Aqui conheci momentos felizes. Sem ti, minha vida seria diferente”. O melhor amigo de Federico Garcia Lorca dizia adeus a tudo, às montanhas, às fontes, às árvores e ao dry martini, sua bebida preferida.

Nos últimos anos de vida, quando lhe perguntavam por que viajava cada vez menos, dizia: “Por medo da morte”. E quando argumentavam que ele poderia morrer em qualquer lugar, ele replicava: “Não é o medo da morte em si. Vocês não entendem. Na realidade não me importo de morrer. Mas não quero de jeito nenhum morrer durante uma viagem”. Para o diretor de “O fantasma da liberdade”, morte atroz é a que acontece num quarto de hotel em meio a malas abertas e papéis espalhados.



Os temores de Buñuel levam à tragédia de Zilda Arns. Não morreu em casa. Não se despediu de Curitiba, Curitiba é que agora vai se despedir desta abençoada mulher.



Fonte: Dante Mendonça para Paraná Online